vou voltar no assunto
antes da referência, vem o gosto
ultimamente tenho usado bastante o tiktok. e curtido até. mas é curioso como o algoritmo vai moldando (ou distorcendo) meu olhar sem que eu perceba. quanto mais scrollo, mais ele afina meu gosto, me mostra coisas que nem sempre têm a ver comigo. às vezes isso é ótimo. adoro quando ele me entrega conteúdos de pessoas produzindo e mixando música. amo quando ele lota minha for you com tutorial de maquiagem. mas há uns momentos em que não serve pra absolutamente nada.
escrevendo a última news, sobre escolher referências e o significado delas, percebi duas coisas: alguns errinhos de digitação (que eu espero que vocês relevem, plmdds) e uma vontade de voltar umas duas casas. ou melhor, escrever sobre algo que vem antes da referência. antes da pesquisa. falar sobre esse tal de GOSTO.
pegando de ponte o que falei sobre o tiktok, acredito que gosto tem mais a ver com atenção do que com acúmulo. com aquilo que se consome, com o que se valoriza, com o que se decide amplificar. sinto que é nesse recorte que a nossa forma de pensar se desenha.
ainda existe a ideia de que inteligência é armazenar informação, claro. mas numa época onde tudo está a um clique de distância, acumular já não diz tanto assim. talvez o mais relevante seja saber o que ignorar. o que filtrar. escolher o que faz sentido, num mundo cheio de coisas que não fazem.
tem gente que cria, tem gente que copia. mas o que mais me chama atenção ultimamente são os que filtram. pessoas que organizam o caos, que enxergam o mundo com tanta nitidez que dá vontade de ver pelas lentes delas. gente que faz você se sentir mais esperto só por prestar atenção no que ela presta atenção.
quando um processo “dá errado”, muitas vezes é porque eu não soube identificar o que realmente gosto ou quero destacar. tipo quando passo dias salvando referência e não consigo avançar. sem filtro, a pesquisa vira um combo de cobrança, comparação e dúvida. no fim, só quando presto atenção no que me interessa de verdade é que as referências começam a fazer sentido.
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entender meu gosto me ajudou não só com referência, mas também me levou a uma série de dúvidas que me persegue. será que eu preciso ter um estilo só que reuna tudo que eu gosto? será que gostar de coisas muito diferentes leva, naturalmente, a uma prática mais generalista? e que um olhar mais direto (de quem se "distrai menos” e filtra melhor os próprios gostos) pode acabar virando um estilo mais reconhecível? isso tem a ver com personalidade ou é só uma escolha estratégica de carreira?
eu já estive nos dois extremos. comecei bem generalista, gostava de fazer de tudo um pouco: desenhava fonte, criava capas de disco, diagramava livro, desenvolvia identidade visual de tudo quanto é tipo de projeto. mas, por motivos de “quero ser melhor em lettering”, passei os últimos seis, sete anos construindo um portfólio focado só nisso.
acabei desenvolvendo, sem querer (mas depois que percebi, querendo), um estilo que me permitisse explorar essa técnica mais a fundo. no começo, como eu não era conhecido por fazer só isso, precisei inventar meus próprios projetos pra que as pessoas enxergassem o que eu era capaz de entregar.

e foi aí que entrou o meu gosto, minha linguagem, meu estilo. o que eu queria dizer, referenciar, desenhar. fui afinando isso aos poucos e recusando tudo que fugisse desse objetivo. posso dizer que deu certo — hoje me sinto mais seguro pra fazer escolhas: na hora de desenhar um lettering, montar uma paleta ou até encarar uma reunião com cliente insuportável sem sair chorando. ganhei confiança.
mas fico me perguntando: será que fiz a escolha certa de focar nisso por tanto tempo? ou melhor, será que isso precisa mesmo ser uma escolha? ser generalista ou ter um estilo talvez não seja uma questão de identidade, mas de fase da vida.
a fase que eu tô agora é essa: pensando (e escrevendo) muito sobre. tenho vontade de documentar essas reflexões que vão mudando e, aos poucos, fazendo mais sentido. talvez num livrinho. ou num podcast com a pessoa que eu mais falo sobre isso. (tô falando aqui porque dizem que quando a gente escreve, acontece. e eu não ligo pra spoilers).
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quando me perguntam como definir um estilo, sinto que esperam uma resposta visual. uma fórmula. tipo duas ou três características que resumam tudo o que eu faço ou tudo o que eu gosto. mas, se eu paro pra pensar, o que me trouxe até aqui foi justamente ter sido generalista: ter experimentado vários formatos e aprendido a traduzir meus gostos mesmo quando eles não apareciam diretamente no resultado final.
até quando faço lettering, que é meu lado mais especialista, com um estilo mais reconhecível, tento variar bastante. mas tenho minhas manias, claro: dificilmente desenho uma type muito fininha ou uso uma paleta com tons muito frios.
ao mesmo tempo, dentro disso, gosto de um certo caos tipográfico: uma sans mais direta, uma blackletter do nada, uma letra redondinha e informal. entendi que é importantíssimo variar dentro das minhas próprias escolhas. porque me obriga a resolver cada projeto de um jeito novo, mesmo quando sigo uma linha visual já bem definida.
só tem que parecer que fui eu que fiz. bold. coloridão.
e talvez por isso mesmo eu sinta que existe um tempo limitado pra trabalhar dentro de um único estilo. cheguei num ponto em que preciso manter uma certa coesão com tudo que já construí, porque é isso que os clientes procuram quando me chamam. e, sinceramente, é isso que paga as contas.
mas confesso: é cansativo ter que sempre estabelecer um link entre o que eu já fiz e o que eu quero fazer. só pra não parecer que saí da narrativa visual que eu mesmo inventei.
vou jogar no tiktok: “como deixar o antigo eu de lado, pra conseguir ser mais eu dentro do meu próprio eu de hoje.”
e conto procês.
✶ meus links ✶
✶ gostei muito de ler essa entrevista do elijah no the trend report e poderia listar várias partes que tem a ver com o que escrevi. ele fala sobre como definir o próprio gosto é escolher fora dos algoritmos, sem ser empurrado por uma trend, mas descoberto com curiosidade. aquele papo que falei aqui sobre atenção e não acúmulo. mas a minha parte favorita é quando ele manda essa pedrada:
muita gente da nossa geração parte do princípio de que arte precisa ser vendida ou transformada em produto. a ideia de pintar algo sem a intenção de vender, ou escrever algo que não vai virar livro, parece perda de tempo. é curioso como isso se mistura com essa postura totalmente passiva — como se não desse mais pra enxergar a diferença entre assistir um filme na netflix e ir ao cinema.
a experiência sensorial de sair de casa, ir até o cinema, encontrar um amigo — todos esses pequenos passos existem por um motivo. antes, era a única forma possível de ver um filme, tecnologicamente falando. e junto com isso, vinham outras coisas: tomar um café, pegar um ônibus, estar na rua.
mas todos esses processos foram sendo eliminados. e aí, não dá pra ter uma resposta emocional verdadeira a algo quando você não passou por nada pra chegar até aquilo.
depois da leitura, acabei caindo nessa palestra dele tb achei legalzinha! embora em alguns momentos ele me passe uma leve vibe coach. hehe
✶ eu:
✶ a maioria dos textos que leio no substack são sobre coisas que eu nunca parei pra pensar. tipo esse do max read sobre os “textos falsos” que a apple inventa pra divulgar os novos recursos do iOS. eu jamais tinha reparado nisso kkk. ele chama esse universo de dimension apple. um grupos de pessoas que vivem num eterno fim de semana, onde tudo é leve, educado, pontuado certinho. parece fanfic gerada por i.a.
a crítica dele é sobre como esses grupos simulam uma vida social perfeitamente coreografada. marketing com cara de vida, mas sem conflito, ironia, caos, nem um “aff” ou um sticker fora de contexto. ele até brinca que, se um amigo mandasse mensagem assim, ele ligava pra família achando que foi sequestrado. (eu também.)





que engraçado o papo sobre os textos da apple!! kkkkkkk
o lance do gosto ter a ver com atenção é meio que quase que exatamente o que o Muntadas fala nesse trabalho dele https://www.macba.cat/en/obra/a04687-warning--perception-requires-involvement--muntadas/ (tá com uma exposição em cartaz em são paulo inclusive)